domingo, 5 de abril de 2015

O que ando lendo

Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

sábado, 4 de abril de 2015

O que ando lendo

A casa das ilusões perdidas

           Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não podia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade, mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a maternidade — e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria que ele se desfizesse. 
            — Por favor, suplicou. — Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe. 
             Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu. 
         Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já estava com uma barriga avantajada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo, esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo — estava certa de que ele vinha com a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo. 
           Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde — agora ele prometia — ficariam para sempre.
           Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele se mostrou irredutível.            E ela, como sempre, cedeu. 
           Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mesmo, contudo, fez uma declaração: 
         — Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo. Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo. 

(Moacyr Scliar, Folha de S.Paulo, 14.06.1999.)

O que ando lendo

Réstia de vida, de Heloísa Seixas

Folheando o jornal, lá estava. A foto da criança africana, faminta, como tantas que vemos. Tantas que nós, embrutecidos, já as olhamos sem estremecer. Mas nessa criança havia algo mais. Os olhos. Aqueles olhos -  úmidos, negros, imensos - tinham a força de uma lagoa ou de um oceano inteiro. Brilhavam espetaculares e transmitiam uma sensação não de horror ou tristeza, o que era espantoso, mas de luta feroz, quase de poder. Porque eram réstia de vida. Como se a alma daquela criança, aprisionada no corpo decrépito, ali tivesse cavado sua última trincheira.

O gigolô das palavras, de Luis Fernando Veríssimo



     Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e  andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza  que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente. 
      Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo:  dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos 1 e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua, mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura. 
        Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em 35 roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão . Não merecem o mínimo respeito. 
      Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos , etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda. 

Meus olhos

Meus olhos estão no impossível do seu olhar
Meus olhos estão no desejo de amar
Meus olhos dizem mais que mil palavras a você
Meus olhos estão procurando um bem me quer para eu ter.

Meus olhos estão mais que solitários a pensar
Se escolho a verdade ou a fantasia do luar
Se deixo queimar o fogo que arde sem se ver
Se fico em prantos buscando algo pra dizer.

Enfim, imagino a curiosidade ao incomodar
E digo que não restam palavras para argumentar
Então fecho com a informação que cabe a você:
Meus olhos cavaram covas, com medo, pra se esconder.

Outubro de um ano qualquer

Estava pensando em você,
lembrando da sua voz
sentindo o seu cheiro
Vendo a sua imagem.

E, então, por um momento,
deletei tudo a minha volta
coloquei-me em uma redoma
e só de você me contemplei.

Foi rápido, mas absurdo
e do absurdo ao inesquecível
me senti ligada ao seu mundo,
mas foi só por um momento.

E volto, de repente, ao meu mundo.
A redoma estourou em um minuto.
O barulho do sinal ressuscitou-me 
e a sua imagem foi guardada
novamente a sete chaves,
no fundo da minha alma.

Parafraseando com Drummond

Vou-me embora pra Pasárgada
lá tem o mundo que eu criei
as pessoas não são falsas com as outras
e vivo livre como sempre sonhei!

Porque são só palavras!

Silêncio! - Dizia o poeta.
O poeta dizia, mas o poeta não sou eu.
Eu não digo, não mando, não peço nada.
Acho que escolho quando fico com o que me é permitido.
Não choro, não sofro, apenas reflito.
No dia, no silêncio, na noite tranquila,
na resposta simplória, inacabada, fragmentada,
incompreendida na sua interpretação.
Talvez, ultrapassada.

Lembranças

Quando se lembrar, me esqueça!
Se me esquecer, não me procure mais.
Rejeite o que foi meu, não me enlouqueça
não desperdice o tempo, não deixe ele passar.
Quando se lembrar, me esqueça!
Se esqueça da criança que você ajudou a andar.
Ao me encontrar, não se perca,
não perca a esperança que um dia vi brotar.
Ao anoitecer não se esqueça,
que no outro dia o brilho voltará.
Ao se permitir, enriqueça
a vida, em nossa vida, passa como o luar.

Crônica: Colecionadora de lembranças

Lembro-me como se fosse hoje, pois os dias mais agradáveis da minha vida foram marcados e datados nesta época, na adolescência.
Lembro-me das viagens que fiz com minha família ao litoral sul de São Paulo. Sempre quando chegávamos lá, a casa estava suja por conta do tempo que ficara sem ninguém, então, as mulheres se juntavam e a limpavam. Comprávamos potes de 2 litros de shampoo e condicionador para todas usarem. A noite, os homens faziam churrasco e depois da louça lavada, passávamos a madrugada jogando stop e dando muita risada. Dormíamos e acordávamos com o corpo colando, para ir à praia. Minha mãe sempre levava eu e minha irmã cedo a praia para pegarmos conchinhas e fazermos uma caminhada. Era gostoso.
Lembro-me que, certo dia desses, eu e minha irmã inventamos de apostar uma corrida. O asfalto queimava de tão quente que estava e, em meio a corrida e o vencer e o perder, enroscamos os pés um no da outra e ploft, caímos, fomos arremessadas do ar para o asfalto quente. Quase não me machuquei, mas em compensação minha irmã gritava de dor e com a pele em carne viva. Foram noites terríveis, para ela e para mim.
Lembro-me que adorava ouvir músicas mais que hoje. Ouvia uma banda chamada Roupa Nova, na casa da praia, as músicas me faziam pensar num garoto chamado Renê, magro de cabelos cacheados, acho que ele também gostava de mim em silêncio, porque trocávamos olhares.
Lembro-me que gostava de andar de bicicleta e escrever em meu diário. Ah, como gostava deste último. Guardava nele todas as minhas recordações, sendo elas boas ou tristes, até que um dia me frustrei, pois minha mãe leu todos os meus segredos. Lembro-me que certo dia, de tanto escondê-lo, achei que o tivesse levado para a escola, e que lá, por graça, alguém o tivesse pegado. Comecei a chorar na sala de aula, e em meio a tanto desespero por ter meus segredos ali revelados, contei a professora que, na época, revistou a mala de todos os alunos, mas não encontramos nada. Quando cheguei em casa, descobri que havia o escondido embaixo do colchão. Dei um suspiro de alivio.
Lembro-me dos amores platônicos que vivi...
Lembro-me de me arrumar todos os dias para ir à escola de manhã, porque lá, além de estudar, ver meus amigos e amigas, também na volta, deparava-me com um grande amor. Paixão, amor, adolescência, tudo misturado e sem cerimônia. Eu adorava sentir o cheiro dele no meu, o seu nariz tocando o meu, o seu sorriso só para mim.
Lembro-me de ter de entrar pelos fundos da escola e pular o portão dela, porque estava atrasada para a aula. De ter de ficar de casaco enquanto a diretora passava nas salas de aula para vistoriar se estavam todos de uniforme, quando eu não estava. De pegar carona no ônibus com motoristas legais que fiz amizade, só para guardar o dinheiro e poder comprar alguma coisa legal pra mim.
Lembro-me do dia que minha mãe revirou minhas coisas e achou o dinheiro das passagens que eu havia guardado e pegou tudo para ela de novo, e meu sacrifício foi para o ralo.
Lembro-me das flores que ganhei, do cd com músicas inspiradas em mim que me foi gravado, do beijo atrás da escola, dos sorrisos, das conversas, das risadas, das broncas, dos choros.
Lembro-me da primeira vez que fui com uma amiga ao cinema sem ter um acompanhante adulto e nos divertimos muito.
Lembro-me das minhas amizades inesquecíveis, das brigas por causa de meninos, dos lanches que eu comia escondida porque não queria dividi-los, dos elogios das professoras porque sempre me dedicava nas tarefas, das roupas largas que eu usava, dos textos de língua portuguesa que despertavam em mim mais que uma simples tarefa.
Lembro-me de ficar apreciando o luar estrelado, de sofrer pela falta de uns e do medo de perder outros.
Lembro-me do quanto eu queria crescer e virar borboleta.
Pode não parecer, mas me lembro de tudo!