sábado, 4 de abril de 2015

Crônica: Colecionadora de lembranças

Lembro-me como se fosse hoje, pois os dias mais agradáveis da minha vida foram marcados e datados nesta época, na adolescência.
Lembro-me das viagens que fiz com minha família ao litoral sul de São Paulo. Sempre quando chegávamos lá, a casa estava suja por conta do tempo que ficara sem ninguém, então, as mulheres se juntavam e a limpavam. Comprávamos potes de 2 litros de shampoo e condicionador para todas usarem. A noite, os homens faziam churrasco e depois da louça lavada, passávamos a madrugada jogando stop e dando muita risada. Dormíamos e acordávamos com o corpo colando, para ir à praia. Minha mãe sempre levava eu e minha irmã cedo a praia para pegarmos conchinhas e fazermos uma caminhada. Era gostoso.
Lembro-me que, certo dia desses, eu e minha irmã inventamos de apostar uma corrida. O asfalto queimava de tão quente que estava e, em meio a corrida e o vencer e o perder, enroscamos os pés um no da outra e ploft, caímos, fomos arremessadas do ar para o asfalto quente. Quase não me machuquei, mas em compensação minha irmã gritava de dor e com a pele em carne viva. Foram noites terríveis, para ela e para mim.
Lembro-me que adorava ouvir músicas mais que hoje. Ouvia uma banda chamada Roupa Nova, na casa da praia, as músicas me faziam pensar num garoto chamado Renê, magro de cabelos cacheados, acho que ele também gostava de mim em silêncio, porque trocávamos olhares.
Lembro-me que gostava de andar de bicicleta e escrever em meu diário. Ah, como gostava deste último. Guardava nele todas as minhas recordações, sendo elas boas ou tristes, até que um dia me frustrei, pois minha mãe leu todos os meus segredos. Lembro-me que certo dia, de tanto escondê-lo, achei que o tivesse levado para a escola, e que lá, por graça, alguém o tivesse pegado. Comecei a chorar na sala de aula, e em meio a tanto desespero por ter meus segredos ali revelados, contei a professora que, na época, revistou a mala de todos os alunos, mas não encontramos nada. Quando cheguei em casa, descobri que havia o escondido embaixo do colchão. Dei um suspiro de alivio.
Lembro-me dos amores platônicos que vivi...
Lembro-me de me arrumar todos os dias para ir à escola de manhã, porque lá, além de estudar, ver meus amigos e amigas, também na volta, deparava-me com um grande amor. Paixão, amor, adolescência, tudo misturado e sem cerimônia. Eu adorava sentir o cheiro dele no meu, o seu nariz tocando o meu, o seu sorriso só para mim.
Lembro-me de ter de entrar pelos fundos da escola e pular o portão dela, porque estava atrasada para a aula. De ter de ficar de casaco enquanto a diretora passava nas salas de aula para vistoriar se estavam todos de uniforme, quando eu não estava. De pegar carona no ônibus com motoristas legais que fiz amizade, só para guardar o dinheiro e poder comprar alguma coisa legal pra mim.
Lembro-me do dia que minha mãe revirou minhas coisas e achou o dinheiro das passagens que eu havia guardado e pegou tudo para ela de novo, e meu sacrifício foi para o ralo.
Lembro-me das flores que ganhei, do cd com músicas inspiradas em mim que me foi gravado, do beijo atrás da escola, dos sorrisos, das conversas, das risadas, das broncas, dos choros.
Lembro-me da primeira vez que fui com uma amiga ao cinema sem ter um acompanhante adulto e nos divertimos muito.
Lembro-me das minhas amizades inesquecíveis, das brigas por causa de meninos, dos lanches que eu comia escondida porque não queria dividi-los, dos elogios das professoras porque sempre me dedicava nas tarefas, das roupas largas que eu usava, dos textos de língua portuguesa que despertavam em mim mais que uma simples tarefa.
Lembro-me de ficar apreciando o luar estrelado, de sofrer pela falta de uns e do medo de perder outros.
Lembro-me do quanto eu queria crescer e virar borboleta.
Pode não parecer, mas me lembro de tudo!


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